21 de dezembro de 2011

Jardim: um balanço

Numa altura em que as competições param, é tempo de balanço do que vai até aqui do trabalho de Leonardo Jardim, numa época em que, aquando do tiro de partida, quase tudo era novo. Olhando com objectividade os resultados até agora alcançados, em minha opinião, o saldo do trabalho de Leonardo Jardim é francamente positivo. 25 pontos na Liga após as primeiras 13 jornadas (com sete partidas fora de casa) é um belo pecúlio, até em termos históricos: trata-se do terceiro melhor registo da história do clube; nos tempos mais recentes, apenas a primeira época de Domingos registou um início de Liga melhor. É verdade que perdemos a Taça, infelizmente um replay do que tem acontecido nos últimos anos, com sorteios azarados e eliminações em casa de um dos metralhas: desta feita em Alvalade, ainda que com uma exibição que merecia mais. Na Europa, cumprimos os objectivos: ultrapassámos a fase de play-off e depois a fase de grupos. É verdade que ficar em primeiro lugar nesta fase estava ao nosso alcance, ficámos a um mísero ponto desse feito. Mas está tudo completamente em aberto, mesmo que tenhamos de enfrentar nos 16-avos um adversário complicado, servido por individualidades de um nível que não podemos almejar e, pior, dirigido por um treinador que conhece a nossa equipa como poucos. Mas, repito, tudo em aberto.

No entanto, fazendo uma auscultação rápida às opiniões dos adeptos, as críticas são mais do que muitas. Há muita gente que não está convencida com o trabalho de Jardim e com o rendimento da equipa, o que é facilmente perceptível no ambiente que se vive nas bancadas do AXA, nos últimos jogos. Em alguns casos (do foro patológico), mais do que uma apreciação desfavorável ao seu trabalho, Jardim desperta uma verdadeira aversão quando não ódio. Porquê este comportamento dos adeptos?

Uma das possíveis explicações seria a extrema valia do plantel. Ora, o nosso actual plantel, à parte o sector atacante, não está ao nível de outros plantéis mais recentes. O de Jorge Jesus e o de Domingos (no início da época passada) eram bem melhores, formados por gente com outras provas dadas. O actual plantel já não era, à partida, muito equilibrado nas posições defensivas, colmatadas na sua esmagadora maioria por novos jogadores. As sucessivas lesões traumáticas encarregaram-se de diminuir ainda mais a sua valia, dificultando ainda a necessária mecanização de um sector completamente reformulado relativamente à época anterior. Não parece, por isso, que se possa exigir mais a Jardim do que os nossos dois anteriores treinadores conseguiram fazer com planteis mais equilibrados. Portanto, não é crível (ou pelo menos, justo) que os adeptos não estejam satisfeitos com o comportamento da equipa porque o plantel alegadamente justificaria muito mais.

Outras explicações? A fasquia estabelecida nos últimos anos. Muito alta, na cabeça dos adeptos. Com Domingos, foi-lhes permitido sonhar com o título; na época seguinte, uma final europeia! Não importa se a Liga foi medíocre (a segunda pior da era Salvador), o chegar à final de Dublin, fazendo cair vários colossos pelo caminho, apaga-o da memória com facilidade. Os adeptos convenceram-se de que lutar por títulos seria, no Braga, “feijão com arroz”. Ainda [N]ão é, infelizmente. À partida para esta temporada, estamos inclusive mais longe, em termos teóricos, de todos os metralhas, que investiram somas sem precedentes nos plantéis, com a novidade de também o Sporting o ter feito. Neste aspecto, houve uma falha clara da estrutura dirigente e da equipa técnica do Braga, no início da época: era necessário baixar as expectativas para níveis mais adequados, sem que isso significasse falta de ambição. A clareza que hoje se constata no discurso de dirigentes e treinadores (“um lugar nos quatro primeiros”) não foi evidente no lançamento da temporada. Os adeptos são, por natureza, sonhadores e em boa verdade, é impossível impedi-lo. Mas é importante chamá-los à terra, introduzindo uma dose mínima de realismo. Os três metralhas estão mais longe – o que não significa que, se algum deles se descuidar, não possa ser por nós ultrapassado. Penso que esta argumento é muito forte, acredito que haja alguns adeptos que julgariam que deveríamos estar lá em cima, a discutir o título, considerando a valia do plantel.

Depois, temos Nuno Gomes. Um jogador de grande qualidade, inteligentíssimo, que certamente fez sonhar alguns dos nossos adeptos. Mas Nuno Gomes, mantendo algumas das suas qualidades intactas, é também um jogador com menor fulgor físico e com características pouco talhadas para o que vem sendo a nossa equipa, em particular frente a alguns adversários. Jardim tem mostrado que não tem complexos em lidar com um jogador da craveira e do prestígio de Nuno Gomes e são muitas as vezes em que pura e simplesmente não é utilizado. Admito que haja alguns adeptos que não o compreendam e considerem um desperdício a não-utilização daquele que poderia ser um jogador-bandeira. E que, bem entendido, continua a ser um jogador muito útil, mesmo se utilizado de forma intermitente.

Quanto ao temperamento de Jardim... Não é uma personalidade que cative. Entrou também de um modo pouco claro (que envolveu uma saída pouco explicável do comando técnico do Beira-mar). Tem um currículum pouco expressivo. É parco em palavras e algo sisudo. Ainda por cima tem aquele sotaque madeirense cerrado. A sua imagem decididamente não cai bem nos adeptos cuja maioria prefere um bronco aos berros e aos saltos a partir do banco. Um treinador inexpressivo e analítico no banco é “mole e não percebe nada disto”. Acho que é também este um argumento forte...

Quanto à qualidade do futebol... Jardim optou por mudar tudo de alto a baixo. O modelo de jogo tornou-nos um Braga radicalmente diferente do da época passada. É um Braga de futebol mais apoiado, também mais “mastigado”, com alguma rigidez posicional no que respeita aos jogadores mais defensivos. É também um Braga que joga mais estendido no terreno (raramente faz “campo pequeno” como fazia com Domingos) o que por vezes permite ao adversário jogar entre linhas. Creio que é disso que muitos adeptos não gostam (e eu também não): estavam habituados a que a equipa não deixasse o adversário jogar. Este poderia ter bola mas não teria forma de a jogar com à vontade no nosso meio terreno. A actual equipa é mais permissiva nesse aspecto. A ideia é ter bola e geri-la com segurança (daí os passes de menor risco, a maior lentidão, a rigidez posicional dos homens mais defensivos) e, com isso, impedir o adversário de jogar. São filosofias de jogo radicalmente diferentes. Confesso que também a mim me custa habituar-me a esta mudança. Tendo a preferir uma equipa a jogar mais compacta e a movimentar-se mais em bloco. Mas... há várias formas de ganhar e, mesmo que o nosso modelo de jogo me continue a suscitar interrogações, tenho de dar o benefício da dúvida a quem tem cumprido, sendo fiel às suas ideias. Com as dificuldades que tem havido, os resultados não podem ser apenas fruto da sorte. Mas admito perfeitamente que a muitos adeptos lhes custe muito habituarem-se a esta mudança. Não acredito contudo que as reacções exageradas e mesmo estúpidas e boçais que já se viram contra o treinador, nesta época (fora e em casa), tenham a ver com este argumento. Há que procurar a sua origem nos factores que enumerei anteriormente.