1 de novembro de 2011

Complexo de Inferioridade...Sim Senhor!

Confesso que por vezes sinto enorme repulsa pela rivalidade instalada, e que tantas vezes ultrapassa a razoabilidade, entre Braga e Guimarães. Concordo que o bairrismo e uma certa paixão pela nossa terra são factores extremamente positivos para o progresso e para a construção e fortalecimento da identidade de uma comunidade. É verdade, também, que esta rivalidade em particular tem um peso histórico e contextual muito significativo. Estamos no Minho e o minhoto foi sempre um povo dado à paixão da terra e a um tradicionalismo agudo que provocou inúmeros conflitos quando se tentaram introduzir mudanças que pusessem em causa os seus hábitos e costumes. Pensava eu que até era salutar esta rivalidade... Todavia, e no confronto com a actualidade, sou forçado a mudar de opinião.

A actual crise desportiva e económica do Vitória de Guimarães tem muita matéria para reflexão para além das contas mal-feitas ou da inevitabilidade das derrotas. As duas últimas épocas épicas do Sporting de Braga - luta pelo título até ao final, histórica vice-liderança da Liga, participação muito positiva na Liga dos Campeões e final da Liga Europa - fizeram o clube da capital do Minho atingir um patamar inesperado e assumir destacadamente a liderança desportiva da região. Nem um Vitória nos seus melhores tempos conseguiu almejar tais metas...nem perto chegou (os seus lugares no pódio não significaram nunca uma proximidade evidente do 1.º lugar). Há que aceitar com desportivismo esta realidade, sem falsas modéstias ou tentativas assoberbadas.

A actual meta do Vitória de Guimarães não pode ser simplesmente ficar à frente do Braga! Já tem tonalidades de obsessão... O ano passado era Manuel Machado a acicatar constantemente este objectivo, já muito vivo nos apaniguados vimaranenses. No presente vemos a luta pelo poder atingir o limiar do ridículo, com o histórico Pimenta Machado a lamentar que "o Vitória de agora seja o Braga do seu tempo", ou que nos seus mandatos "o Braga só por 3 vezes tenha ficado à frente do Vitória" (afinal foram 7 em 21 edições!) ou ainda que "os jogadores do Braga já tremiam antes de defrontar o Vitória". Se tantas vezes acusam os adeptos do Braga, a meu ver injustamente, de serem também de outros clubes, como foi possível o Vitória, que tanto se ufana dos seus exclusivos adeptos, terem tido um histórico presidente que claramente afirma o seu benfiquismo?

Chego à conclusão que falamos de complexo de inferioridade... o pequeno, ou aquele que vê diminuída a sua categorização, que reage perante quem vê confirmada a sua grandeza. Embora seja cientificamente redutor ler esta rivalidade tendo apenas um factor em vista, acho que há matéria para o afirmar no presente. Primeiro foi a questão da capital de distrito ser em Braga, num tempo em que Guimarães rivalizava no progresso. Depois porque o Santos da Cunha no Estado Novo canalizava tudo para Braga. Depois foi a Universidade do Minho, a Falperra, a região de Turismo, o Tribunal da Relação, o Parque tecnológico, o Centro de Nanotecnologia...

No futebol, após um início de algum equilíbrio, o Vitória estabeleceu-se na 1.ª divisão. O Braga ganhou uma Taça de Portugal e equilibrou nos finais de 70 e inícios de 80, com boas classificações e qualificações europeias. Mas os anos 90 foram vimaranenses. Como Braga era a maior cidade, o mais normal, e óbvio, era que a cidade também tivesse um clube mais consistente e com maior sucesso. Tem mais população, economicamente mais forte, dinâmica e jovem...e agora competência na direcção! Portanto, nada mais natural que o que está a suceder. O Sporting de Braga afirma-se e potencia os recursos que beneficia por ser o terceiro pólo urbano português e Guimarães redimensiona a sua grandeza, também pela crise grave que grassa no vale do Ave. É preciso aceitar a realidade com realismo, sem recorrer à violência ou a sentimentos de inveja que em nada engrandecem quem o tem. Chegamos ao cúmulo de criticarem o treinador e jogadores numa época em que foram à Europa, 5.º lugar na classificação e final da Taça de Portugal... O que se passou? É que o Braga ficou em 4.º e foi à final da Liga Europa...

No dia em que o Vitória e a própria cidade se centrarem em si e não no sucesso do vizinho, talvez consigam crescer sustentadamente e obter sucesso. Assim o desejarão os autênticos minhotos! Assim o desejo eu também!