25 de maio de 2011

A propósito da final: a relação e a comunicação do clube com os sócios e adeptos

Perguntava há uns dias um amigo se faria sentido a separação entre presidente de clube e presidente da SAD. O enfoque da sua pergunta era o das modalidades ditas amadoras e o ecletismo do clube. Não acho que faça sentido essa separação, sobretudo com um homem com as características de António Salvador à frente do futebol. A experiência foi tentada e, como todos sabem, não resultou.

Mas a questão não é despicienda. Tenho para mim que António Salvador é um extraordinário presidente da SAD mas um medíocre presidente do clube. E digo-o, não pensando na dicotomia futebol-modalidades amadoras, mas pensando na relação do clube (instituição) com os seus sócios e adeptos. Não me interessa se as competências são estritamente do clube ou se a SAD também abarca parte das funções a que me refiro. O que está em causa é a relação com os sócios e adeptos, afinal o que dita, a prazo, a grandeza de um clube e a sustentabilidade do seu sucesso.

E neste aspecto, como já muitos disseram, estamos muito mas muito aquém do crescimento registado nos últimos anos em termos desportivos (futebol) e mesmo em termos económicos. Não quero ser injusto e dizer que nada foi feito – porque não é verdade. A campanha de marketing “Guerreiros do Minho”, por exemplo, pegou de estaca e hoje esta é uma imagem que se nos cola, mesmo na imprensa (e, ao que parece, causa inveja). Mas se houve momento que mostrou como estas questões estão afastadas das prioridades de quem nos dirige foi o desta final da Liga Europa. Este era um momento único para catapultar a paixão pelo clube para outra dimensão e para reunir a cidade e arredores à volta do clube. Era momento de “investir” a sério nisso, motivar os adeptos a acompanharem a equipa, acender neles a paixão pelo clube, pintar a cidade de vermelho, usando de todos os meios possíveis e imaginários para chegar aos nossos adeptos. O que se viu!? Nada disso. Uma comunicação ridícula – nem sequer os preços dos bilhetes dos bilhetes foram anunciados oficialmente no site do clube – aliada a aparente desorganização e desleixo no acompanhamento da deslocação a Dublin por parte dos adeptos, deixando-os “ao deus-dará, não falando na vergonha que foi a falta de regras na atribuição de bilhetes para o jogo, sem respeitar a regra básica da prioridade aos sócios. Com isto, não só não conseguimos fazer deste evento um momento galvanizador da paixão clubística como, pelo contrário (imagine-se!), conseguimos criar em muitos espíritos, mesmo entre os nossos indefectíveis, alguma desilusão e revolta pelo facto de não poderem acompanhar o seu clube nesta jornada histórica. Dir-me-ão que, tendo em atenção a difícil logística desta final (afinal Dublin fica numa ilha!) pouco haveria a fazer. É evidente que nunca seria possível uma deslocação tão massiva quanto desejaríamos… mas, com boa vontade e algum engenho, seria possível termos preços para a viagem a Dublin mais em conta que permitiriam a mais alguns lá ter estado – e mesmo entre aqueles que mesmo assim não pudessem lá estar, haveria certamente o reconhecimento do esforço do clube. E quando falo em esforço do clube não estou a pensar em “comparticipação” nas viagens. Há muitas maneiras de apanhar moscas… Mesmo com o tal acordo com a Cosmos (que deveria ser explicado aos sócios)! Até porque, todos sabemos, houve quem conseguisse voos relativamente baratos, adiantando o dinheiro da reserva dos charters…

Às vezes, tenho a sensação de que quem nos dirige pensa que somos mais pequenos do que realmente somos. É verdade que não temos a dimensão humana de um dos metralhas mas não somos só “aquilo”. Foi realmente uma pena o que aconteceu. Não sei se isto sucedeu com toda a gente mas acho que eu próprio não vivi a final com o entusiasmo que teria vivido (e que o momento merecia), caso tivesse sentido que tudo tinha sido feito para fazer daquele momento o que ele realmente era: o maior momento da história do clube (com a devida vénia para a final do Jamor de 1966). Senti que faltava nas bancadas muita gente que poderia lá estar e que o clube não esteve à altura da sua ilusão.

Mas as coisas não terminam por aqui. Não é admissível o desleixo continuado à posteriori. O completo black-out quanto à hora da chegada a Braga e o local da chegada, a falta de mobilização no dia do regresso privaram equipa e adeptos (sobretudo os que por cá ficaram) do merecido momento de comunhão que, estou certo, teria reunido milhares de adeptos. Não é possível o nosso presidente ter dito que a festa é apenas para os vencedores, por muita ambição que estas palavras revelem. Desta forma, passámos uma imagem de pequenez e ingratidão (que os media não deixaram de veicular) que não condiz com o que é hoje a massa adepta do Braga. Ficamo-nos pela recepção na Câmara Municipal (sem qualquer comunicação por parte do clube!), já na sexta-feira, a uma hora imprópria (para a maioria dos adeptos), que embora plena de entusiasmo, ficou muito aquém do que poderia ter sido.

Pergunto eu, quem é que se consegue rever num clube que oferece esta imagem no momento mais sublime da sua história!?!? Ou trata-se de um adepto fidelíssimo que, mesmo discordando desta postura, tudo ultrapassa em nome da sua paixão; ou tratando-se de um mero simpatizante, porventura vira costas, desiludido por um clube que assim tão mal-trata os seus. Podem-me dizer que há alguma inexperiência do clube na gestão de um momento destes – e há. Mas, caramba, este era o momento mais alto da nossa história desportiva! Tínhamos obrigação de empenhar todos os recursos, todos os esforços no planeamento deste evento que poderia significar um grande salto em frente na consolidação do clube em termos sociais. Nem que fosse aprendendo com quem tinha mais experiência que nós! Lamento mas, para mim, o que se passou é mero sintoma de uma concepção do clube que atribui pouca importância à sua implantação social, reduzindo atenções à esfera estritamente desportiva. Por isso, digo que Salvador é um extraordinário presidente da SAD mas um medíocre presidente do clube. E, note-se, não exijo que ele tenha uma sensibilidade para estas questões igual à mestria que tem revelado para dirigir o futebol, no quadro da SAD. Mas, se não a tem, reconheça a importância da relação com sócios e adeptos (nas suas várias vertentes) e delegue efectivamente poderes, atribuindo alguma autonomia a alguém (ou uma equipa) capaz. Em bom rigor, nem sei se já dispomos desta estrutura muito profissional e dedicada a que por vezes se faz grandes elogios. Se a temos, há que a deixar trabalhar, definindo as suas balizas de actuação mas conferindo-lhe um mínimo de autonomia. Se não a temos, há que reuni-la. Não podemos continuar assim, sob pena de jamais concretizarmos o potencial de crescimento que temos e que a óptima gestão da esfera desportiva justificaria. Não podemos sentar-nos sobre o sucesso desportivo e esperar que os milagres aconteçam.

Deixámos passar esta oportunidade de ouro – o que, sinceramente, me deixou muito triste e revoltado porque momentos destes são (quase) irrepetíveis. Mas não adianta chorar o leite derramado. É preciso retirarmos as devidas lições do que se passou!