24 de maio de 2011

Balanço da época 2010/2011

Quando se faz um balanço da época que agora finda, há a tentação de distinguir as épocas interna e internacional. Se o fizéssemos chegaríamos à conclusão de que, a par da maravilhosa época internacional, teríamos também realizado uma das mais fracas épocas internas da era Salvador (apenas superada, pela negativa, pela temporada 2007/08 que começou com Jorge Costa, passou por Manuel Machado e acabou com António Caldas). Acho que não faz sentido fazer essa divisão porque competições internas e Liga Europa foram decorrendo paralelamente – e os jogos europeus não foram assim tão poucos: dezanove!

Houve três períodos distintos, quanto a mim:

- uma óptima entrada em acção até à derrota no Emirates, período durante o qual assegurámos um pouco previsível apuramento para a Liga dos Campeões;

- um período de desnorte, de grande irregularidade e fragilidade defensiva, que durou grosso modo até Março, até à vitória em casa sobre o Benfica, em que nos deixámos atrasar na Liga e perdemos as Taças internas.

- de então até final, encadeamos uma série de bons resultados (ainda que a ponta final da Liga tenha sido altamente condicionada pela focalização nos jogos europeus).

Acho que a determinado momento, ainda no início da temporada, pecámos por algum deslumbramento. O clube atingiu uma meta extraordinária logo de entrada (fase de grupos da Liga dos Campeões), batendo adversários de renome e talvez todos tenhamos pensado que estaríamos a um nível que nos capacitava para ombrear com os mais fortes. O estilo de jogo denunciava-o: mais empreendedor, menos refém do calculismo que era marca da temporada anterior. Ainda conseguimos disputar palmo a palmo a vitória no Dragão (embora derrotados) mas com o Arsenal veio a derrocada. Esse foi um jogo que marcou psicologicamente a equipa. Durante muito tempo não voltámos a encontrar-nos. A irregularidade da equipa foi notória: nas competições internas não conseguíamos encadear dois resultados positivos consecutivos e só os êxitos internacionais iam contrabalançando a má carreira interna. O período que mediou entre a derrota de Londres e o final de Dezembro (quando também nos despedimos da Taça de Portugal, na Luz) marcou, quanto a mim, o elemento de insucesso da época. Apesar de erros de planeamento (em particular no que respeita às contratações para a linha defensiva), dispúnhamos, nesta fase da temporada, de um plantel com qualidade e profundidade suficientes para poder competir nas várias competições. Não o conseguimos, claramente! Mais do que uma questão física, creio que na génese deste fracasso esteve a incapacidade para a equipa se motivar para jogar entre os jogos (com outro glamour) da Liga dos Campeões e, de algum modo, uma abordagem aos jogos mais adaptada aos confrontos internacionais, pautados por outra postura em campo dos adversários, mais positiva. Foi a constatação da dificuldade do técnico em gerir (alguma) abundância que, a meu ver, levou a que António Salvador se sentisse algo defraudado e tenha tomado as decisões que tomou em Dezembro-Janeiro: o emagrecimento do plantel (reduzindo custos, tendo em atenção os objectivos ainda em aberto*) e (é minha opinião) a não renovação do contrato de Domingos.

Depois dos acertos de Janeiro (com duas contratações praticamente inócuas, certamente com pouco ou nenhum dedo do técnico – Marco Ramos e Vinicius), com muito menos recursos (saídas de peso de Moisés, Luís Aguiar e Matheus, entre outros), a equipa começou por ensaiar uma recuperação, numa fase sem competições internacionais. Melhorou alguma coisa do ponto de vista exibicional mas a persistente debilidade defensiva não lhe permitiu ser consistente ao nível dos resultados (vários jogos decididos por erros crassos de natureza individual, inclusive o confronto com o Paços de Ferreira que ditou o afastamento da Taça da Liga). Não se pode dizer contudo que a equipa sentiu demasiado a saída de jogadores influentes. Simplesmente, a equipa foi obrigada a adoptar outras soluções com o comboio em andamento, apostada agora num futebol mais pensado e menos exclusivamente baseado em transições rápidas, como até então acontecera.

E é curiosamente quando as competições europeias estão de regresso que a equipa cresce, indiferente às dificuldades e à escassez de recursos. A recepção ao Benfica, no AXA, a contar para a Liga, é marcante. Fizemos uma grande exibição e vencemos vincando uma superioridade manifesta em todo o jogo. É possível que esta partida tenha tido reflexos positivos a nível psicológico. A verdade é que, a partir de então, a equipa fez das fraquezas forças, regressou ao realismo e rigor da época anterior (melhoria defensiva assinalável, 9 golos sofridos em 16 jogos, incluindo os jogos europeus até à final) e encetou a caminhada que a levou a chegar ao final da temporada disputando o terceiro lugar da Liga e… a Liga Europa!!!! Na esfera europeia, faltam adjectivos para qualificar a nossa caminhada. Com um plantel mínimo, enfrentando lesões e castigos importantes, é verdadeiramente inacreditável como esta equipa chegou à final da Liga Europa! Uma caminhada épica! Só uma equipa com grande espírito de sacrifício e um colectivo na verdadeira acepção da palavra poderia ter chegado tão longe! Qualidades que até determinada fase da época pareciam estar tão arredadas deste grupo (já não era exactamente o mesmo, é verdade). Fica o amargo de boca de termos perdido o terceiro lugar na Liga com a meta à vista, ainda que a concentração na Liga Europa possa explicar de alguma forma a má ponta final (0 vitórias nos últimos quatro jogos e apenas um golo marcado). E claro, fica também alguma mágoa por termos perdido a oportunidade de conquistar uma competição europeia. No entanto, penso que podemos estar de consciência tranquila em relação a isto: a equipa esteve à altura do momento e nunca se deixou menorizar por um Porto que até aí praticamente cilindrou todos os adversários que lhe surgiram pela frente. Fraco consolo quando o sonho esteve tão perto mas não podemos deixar de nos sentirmos orgulhosos pelos feitos alcançados nesta temporada. A jornada de Dublin foi um prémio magnífico para todos e um momento sublime para o clube!

O balanço tem de ser claramente positivo! Não foi uma época perfeita, que tivesse sido marcada pela regularidade mas os marcos alcançados foram de tal forma relevantes (e até certo ponto inesperados) que ofuscam completamente o que de menos bom sucedeu, em particular uma época interna abaixo do que tem sido habitual na era Salvador (pelo menos, na Liga, em termos pontuais). Na esfera financeira, esta época premeia o risco assumido nas duas épocas anteriores, amplamente compensado pelos prémios pecuniários alcançados (sobretudo através da Liga dos Campeões). Fica também uma ideia curiosa: o Braga de Domingos (em qualquer das suas duas épocas) foi sempre mais equipa quando os recursos escassearam; a abundância não foi tão bem gerida nem produziu tão bons resultados. Penso que partiu desta ideia a decisão de Salvador não renovar o contrato de Domingos, decisão que deve ser avaliada à data em que foi tomada e não à posteriori.


* Como é evidente, não passaria na altura pela sua cabeça (nem na de ninguém) que o Braga teria possibilidades de chegar a uma final da Liga Europa.