26 de fevereiro de 2011

Do modelo de gestão ao treinador

Há muita gente que critica um certo tipo de gestão teimando em não perceber como é que os casos de sucesso de gestão desportiva em Portugal sucedem. O caso mais evidente de êxito desportivo no futebol português(Porto) é paradigmático: os melhores acabam (quase sempre) por sair, normalmente com enormes mais-valias financeiras e é o assumir desta inevitabilidade, fazendo-o de forma planeada, que lhes permite praticar salários muito acima do que as suas receitas ordinárias admitiriam e assim, aceder a atletas que de outra forma seriam inacessíveis. O clube quando muito aguenta o assédio da concorrência aos melhores jogadores 2-3 épocas, valorizando-os e procurando fazer uso da sua mais-valia desportiva. No fundo, isto leva a que, com maior ou menor rigor, o clube seja gerido por ciclos. O problema deste modelo é que hoje estes ciclos temporais são muito curtos – devido à liberalização do mercado de transferências e à falta de músculo financeiro dos nossos clubes – o que torna as possibilidades de retorno desportivo mais reduzidas.

O Braga limitou-se a "copiar" o modelo. Esta época, em princípio, seria uma época de transição, de fim de um ciclo e de preparação de um novo ciclo. A espinha dorsal da equipa reunida aquando da chegada de Jorge Jesus dificilmente se poderia manter por muito mais tempo: alguns jogadores estavam “no ponto” para serem transferidos (e alvo de forte assédio de emblemas com outro arcaboiço financeiro) e outros, pela sua idade, a iniciar a fase descendente da carreira (ou pelo menos, com vontade de sair para ganhar a sua “reforma dourada”). O problema foi que o clube /SAD deparou-se com uma realidade desportiva sedutora: havia a possibilidade (mesmo que remota, não o podemos esquecer) de uma presença na Liga dos Campeões. De forma que a SAD escolheu um meio termo: deixar sair aqueles que garantiriam um encaixe mínimo que colocasse as contas da SAD fora do vermelho e manter alguns jogadores-chave que assegurassem um rendimento desportivo à altura das ambições da equipa. Estou seguro de que, não tivéssemos nós ultrapassado o Celtic e o Sevilha, do grupo de jogadores constituído por Moisés, Rodriguez, Alan e Matheus (pelo menos), alguns (se não todos) teriam saído antes ainda do final de Agosto. Com a passagem à fase de grupos da Liga dos Campeões, o retorno financeiro do investimento realizado nos dois anos anteriores ficou assegurado e creio que a ideia seria assegurar assim uma transição mais suave para um novo ciclo, admitindo que seria possível manter a performance desportiva mesmo nessa fase de transição, agora necessariamente menos brusca.

O insucesso da época interna obrigou no entanto a SAD a rever esta posição. A verdade é que a equipa não conseguiu passar incólume por uma realidade a que não estava habituada (alternar os campos da liga com o glamour da Liga dos campeões). Há vários motivos para isso, alguns que me parecem evidentes: dificuldade em lidar mentalmente com esta nova realidade desportiva, num clube para quem Liga dos Campeões era completa novidade (daí talvez a dificuldade em ldar com o grupo por parte de Domingos); o desgaste físico acrescido, num plantel desequilibrado (riquíssimo numas posições, claramente deficitário noutras). Creio que é também claro que houve problemas no planeamento desta época, ao nível da definição do plantel. Investiu-se demasiado em determinados sectores já bem “cobertos” e pouco (e mal) noutros. Mesmo entendendo a encruzilhada em que a SAD se encontrava (apostada em manter alguns jogadores-chave em face da hipótese Liga dos Campeões), era evidente que esses jogadores não iriam durar muito tempo e que o ideal seria ter já no plantel alternativas a esses homens. Não se compreende, por exemplo, como é que o Braga não investiu fortemente num central de categoria, sabendo que Moisés e Rodriguez estavam a prazo. Pior se compreende o não investimento num lateral com provas dadas na nossa liga, para além de Sílvio, sabendo que tínhamos ficado sem dois dos melhores laterais da Liga (um em Janeiro o outro no final da época). Não estamos a falar de uma segunda linha; teria de ser alguém para entrar directamente para o onze! É evidente que a saída apressada de Carlos Freitas, a meio do defeso, não poderia trazer nada de bom. O plantel foi fechado a correr (se bem que depois ajustado, após ultrapassarmos o Celtic) com jogadores sem nível (descobriu-se depois) e, em alguns casos, de carácter duvidoso.


A má temporada no plano interno (que só o nivelamento por baixo da nossa liga ainda consegue disfarçar) e a saída da Liga dos Campeões (ainda que com comportamento meritório) fez, creio eu, Salvador retroceder e voltar ao que seria o plano inicial. Voltou a encarar esta temporada como uma época de transição, fez algumas mais-valias, corrigiu alguns problemas do plantel e reduziu o custo salarial do plantel, ajustando-o a objectivos mais limitados (que neste momento, para mim, se limitam a uma qualificação para a Liga Europa, qualquer que seja o lugar na classificação final da liga). No entanto, esse ajustamento não se fez como seria previsível, com o intuito de preparar a próxima época. Seria indicado investir fortemente naqueles sectores que evidenciavam claríssimas lacunas, admitindo no plantel jogadores que poderiam ser pedras-chave nas próximas épocas. Não vimos isso acontecer. Contratámos remendos, sem fazer apostas claras. Não me parece, com o que vi neste momento dos reforços, que possamos construir um futuro com ambição à volta de qualquer dos reforços que entraram em Dezembro – à excepção de Ukra, um miúdo com muito talento (espero que se concretize a sua permanência em definitivo).

Assim, parece-me claro que, no mínimo, Salvador não estaria inclinado a renovar com Domingos, pelo menos desde Dezembro-Janeiro. Penso que essa renovação deveria ter sucedido bem cedo nesta temporada (a seguir aos 6-0 em Londres teria sido o ideal) mas se nessa fase Salvador (e/ou Domingos?) entendeu não o fazer, admito que as suas razões se mantenham. E que razões poderão ser essas? Só vejo três: questões relacionadas com a sua capacidade de liderança, o seu talento para formar um plantel e a apetência para apostar nos jovens. Confesso que tenho dúvidas (de há muito) em relação aos dois primeiros items; em relação ao último, não tenho dúvidas nenhumas, Domingos, como a esmagadora maioria dos treinadores portugueses, prefere a experiência à juventude, mesmo quando o talento nesta é evidente (e.g., Guilherme). Em relação aos restantes factores, não estou em condições de os avaliar. Ou por outra, avalio por uma imagem que é transmitida que pode ou não corresponder à realidade. Na verdade, não me parece que Domingos tenha particular carisma para ser um grande líder – mas sei lá se ele foi sempre bem suportado por quem gere o nosso futebol. Por outro lado, Domingos ainda não mostrou particular talento para formar um plantel. Exponenciou de forma maravilhosa recursos que já tínhamos... mas dos que chegaram de novo, muito poucos se revelaram mais-valias. Responsabilidade maioritariamente sua ou da nossa estrutura? Não sei responder. Mas todos sabemos que há treinadores que conseguem fazer-se rodear de plantéis ao seu gosto, impondo a sua visão. Não sei se isso aconteceu ou não com Domingos.