25 de outubro de 2007

Um texto a ter em conta

Por Luís Freitas Lobo, in A Bola

Arranca em Bolton a participação do Sp. Braga esta época entre a elite europeia de clubes. É a quarta qualificação consecutiva para a Taça UEFA mas o seu presidente tem sussurrado ambições maiores. Fala na Champions, em ganhar uma Taça. Nada mais legítimo. O título já é outra questão. Para lá chegar só numa época com os três grandes todos em depressão exibicional simultânea. Não é, porém, razão para sentirem frustração. O nível que o clube atingiu nas últimas épocas tornou-o, desportivamente, o quarto grande. E, muitas vezes, a melhor resposta em Portugal à pergunta o que é jogar bem foi sugerir ver um jogo do Sp. Braga.
O clube encontra-se hoje num momento chave. Conseguir ser o quarto grande não apenas por resultados desportivos circunstanciais (como já foram, noutros ciclos, Belenenses, Boavista ou Guimarães) mas sim pelo seu estatuto como clube, independentemente de a bola entrar ou bater no poste. A recuperação económica é um facto e num futuro próximo será inevitável, pela natural erosão do tempo, viver sem a mesma mão camarária que, para o bem e para o mal, lhe balizou o destino durante três décadas. E 30 anos é muito tempo. De mais mesmo se olharmos que de património o clube nada tem. Por isso a falada Academia de Futebol (com maior ou menor especulação imobiliária) é decisiva para construir esse futuro como quarto grande num clube que sempre teve excelente formação e, paradoxalmente, andou sempre com a casa às costas para esse miúdos se treinarem.

No relvado a equipa vive ainda sem uma identidade. É verdade que o clube não pode fugir aos bons negócios mas custa ver lógica desportiva para o Braga vender e, sobretudo, comprar tantos jogadores todas as épocas. Nesta foram 16! Jorge Costa ainda não conseguiu equilibrar o onze. A equipa é forte a atacar, com extremos perigosos (Wender, José Manuel, Hussaine) no um para um e inteligentes em triangulações com a subida dos laterais (João Pereira e César Peixoto) ou em trocas posicionais com os médios de segunda linha (Jorginho ou João Pinto) servindo um bom ponta-de-lança (Linz), mas, depois, sofre muito quando fica sem bola. É esse o grande problema do actual Braga: a transição defensiva. Os laterais fecham mal em recuperação, Madrid está demasiado encostado aos centrais, Vandinho perdeu a intensidade do passado para ser o box to box defesa-ataque-defesa, ficando muitas vezes a meio caminho. Tudo isto sucede em 4x3x3 ou 4x4x2.

Como o actual momento do Boavista explica, ser o quarto grande não passa por ganhar esporadicamente um título nacional. Passa por criar bases (estruturas próprias cruzadas com gestão financeira e desportiva realista) que no futuro tornem o clube independente. Da terra ou do céu.