25 de julho de 2007

O tanque destruidor

Quando Jair Baylón entra em cena, é irresistível segui-lo com o olhar para todo o lado. A imponência física que faz lembrar um lutador de boxe, com pernas e braços bem modelados, de músculos assentes num tronco impressionante para sua idade, e a ferocidade com que se movimenta no ataque, sempre à coca de espaços para armar o remate ou servir os companheiros, impressionam qualquer um. Ronaldo é o seu jogador preferido, mas nesta altura dificilmente o brasileiro terá a mesma capacidade explosiva do fenómeno arsenalista. Trata-se de uma máquina destruidora, um inimigo terrível para quem joga à defesa e, por isso, não poderiam ser mais apropriados os cognomes que ganhou no Peru e, mais recentemente, em Braga: El Tanque e Robocop. Melhor marcador de sempre nas camadas jovens do Peru, com 65 golos, sempre ao serviço do Alianza Lima (o clube mais popular), há muito que o avançado anda nas bocas do Mundo e a sua chegada ao Braga quase ficou a dever-se a um golpe de sorte, misturado com algumas coincidências admiráveis.

Depois de ter participado num torneio na Argentina, River Plate e Independiente estiveram muito próximos de contratá-lo, mas o desejo de jogar na Europa falou sempre mais alto e em Abril já se encontrava na Alemanha a treinar no Werder Bremen. O sonho de actuar na Bundesliga acabou, no entanto, por transformar-se num pesadelo devido à existência de um pré-contrato assinado entre o seu anterior representante (Carlos Delgado) e o Alianza, que tudo fez para não perdê-lo, incluindo não o colocar a jogar como forma de pressioná-lo a renovar. Revoltado com a traição de Carlos Delgado, que inviabilizou o ingresso no clube de Bremen, Baylón rompeu a sua ligação com o agente e pediu ajuda ao irmão Júlio. Continuava a treinar no Werder Bremen, mas sentia-se perdido, sem qualquer certeza sobre o seu futuro, e a ajuda do irmão mais velho não demorou, ao aparecer acompanhado de Eugénio Lopes, um dos colaboradores da Gestifute que trabalha no continente sul-americano e que sempre admirou as capacidades do jovem avançado.

Pela mesma altura, o Braga começava a procurar precisamente um avançado com aquele perfil. Mal cruzou informações com a Gestifute, tudo aconteceu à velocidade da luz, tão depressa que Baylón nem teve a oportunidade de esvaziar o seu cacifo no Werder Bremen antes de viajar para Portugal e assinar, deixando na Alemanha as suas chuteiras de estimação, entre outro material desportivo. O segundo passo foi regularizar a situação do artilheiro peruano, que chegou a jogar à quarta-feira pelos sub-20 e ao domingo pelos sub-17, com o Alianza Lima. Se tivesse renovado, rapidamente iria aparecer na equipa profissional do “Benfica do Peru” para depois ser vendido; em Braga, terá de disputar a titularidade com o consagrado João Tomás.

Calça 45 e adora “clássicos” de Cubillas


Filho de Júlio Baylón, o primeiro peruano a jogar na Alemanha, ao serviço do Colónia, e que representou a célebre Selecção do Peru que chegou aos quartos-de-final no Mundial do México (1970), Jair é descrito como uma réplica do pai, não só em termos fisionómicos - a sua silhueta musculada é marcadamente um factor hereditário, como também pela forma exuberante como se movimenta no ataque. Júlio Baylón actuava como extremo, Jair é um ponta-de-lança, mas as armas são comuns: força, velocidade e grande instinto de matador. Os seus remates são marcadamente potentes e até poderão ter alguma relação com o facto de calçar o tamanho 45, sendo certo que mais ninguém do plantel do Braga rivaliza nesta matéria. Curiosa é ainda a sua admiração por Teófilo Cubillas, que também foi companheiro do pai na selecção. Ronaldo é a sua referência contemporânea, mas volta e meia recorre ao DVD para recordar a arte do antigo avançado do FC Porto, muitas vezes ao som de salsa, pois adora ouvir música. Amante da Internet, da PlayStation e de filmes de comédia (sempre que pode revê “Scary Movie”), Jair Baylón também é um bom garfo, apreciador de pratos simples como arroz de frango. Em Portugal, experimentou arroz de marisco e adorou e, pelo que já mostrou, mantém um curioso apetite… por golos.

in O Jogo